Texto: um enigma a ser desvendado

Na busca pelo sentido do texto, o leitor é desafiado a participar de um estudo minucioso, partindo das pequenas porções, chamadas enunciados, nas quais a menor palavra pode funcionar como “xeque-mate”, carregando a essência do todo, ou seja, do texto.

Conforme Dominique Maingueneau (2001, p.20), para compreender o sentido de um enunciado, não basta recorrer a um livro de gramática ou a um dicionário: “É preciso mobilizar saberes muito diversos, fazer hipóteses, raciocinar”.

Koch, em sua obra Desvendando os segredos do texto (2003, p.19), compara-o a uma espécie de “jogo da linguagem”, no qual os “estrategistas” usam vários meios “de ordem sociocognitiva, interacional e textual” a fim de alcançarem o sentido. Como peças fundamentais desse jogo, a autora aponta o “produtor/planejador”, cujo papel é disponibilizar seu projeto de dizer, valendo-se de diversos artifícios para orientar o “leitor/ouvinte”, que, por sua vez, deve seguir os indícios oferecidos, desvendando as pistas e construindo, assim, o sentido, e, também, o próprio “texto”, como instrumento articulador das informações explícitas e implícitas organizadas pelo produtor.

À medida que autor e leitor se encontram, mesmo que indiretamente, aceitam fazer parte do jogo, procurando cooperar um com o outro. Os conhecimentos mútuos precisam ser levados em conta no momento da elaboração do texto, pois são indispensáveis para que o leitor possa moldar um sentido convergente com aquele inicialmente pensado pelo produtor. Para a linguística textual, o processo de construção do sentido se dá pela análise e apreensão das informações encontradas no co(n)texto, unidas aos conhecimentos de mundo que, a partir de uma série de recursos, são acionados pelo sujeito interlocutor. Com efeito, a compreensão depende de uma grande parcela de saberes compartilhados.

O leitor é um agente que reconstrói o sentido do texto, por meio de fatores linguísticos e extralinguísticos. Os fatores linguísticos abarcam o léxico, a morfologia, a sintaxe e todos os demais elementos que compõem o universo verbal e requerem habilidades como reconhecer palavras, associar os sentidos entre uma oração e outra, enquanto os fatores extralinguísticos são extrínsecos ao texto, no sentido de que exigirão do leitor a criação de representações mentais do que está sendo lido. Aí entram os conhecimentos enciclopédicos, as expectativas, as opiniões particulares, as vivências, que complementarão a interpretação.

A reação desse sujeito pode ser de consenso, se ele se enquadrar na imagem inicialmente criada pelo produtor do texto, ou de discordância, se essa imagem não estiver condizente. Por isso, Patrick Charaudeau, segundo Ieda de Oliveira (2003, p.29), alerta que “o ato de comunicar-se é uma aventura”, podendo resultar em sucesso ou em fracasso.

O texto é, portanto, um processo de construção de sentido no qual os sujeitos interagem numa atividade sociocomunicativa.

Ora, se o sujeito, a cada nova leitura, vai desvendando mais pistas e atribuindo sempre novos significados, o texto é mesmo um enigma a ser desvendado, pois seu sentido é passível de reconstruções permanentes.

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