Interpretação + colocação pronominal

Uma breve opinião:

9º ano e a colocação pronominal: um conteúdo praticamente em desuso nas escolas, esquecido sobretudo devido à linguagem coloquial. Mas estudar o emprego dos pronomes não é somente decorar as regrinhas de próclise, mesóclise ou ênclise, até porque isso estaria limitado aos pronomes pessoais oblíquos. E os demais grupos?

Mesmo que a língua falada permita tantas variações, os alunos gostam de aprender que “MIM não conjuga verbo”, ficam surpresos ao descobrir que existe sim diferença entre este/esse, curtem saber por que algumas regiões usam TU e outras VOCÊ, se admiram ao ver que todas essas palavrinhas são belas ferramentas de substituição… enfim, o que poderia parecer “cultura inútil” se torna importante, mostrando que aplicar as formas pronominais corretamente num texto faz muita diferença.

– Os exercícios a seguir são aplicáveis quando já se deu a base de conhecimento.

discussao

Papos
Luis Fernando Verissimo

– Me disseram…
– Disseram-me.
– Hein?
– O correto e “disseram-me”. Não “me disseram”.
– Eu falo como quero. E te digo mais… Ou é “digo-te”? – O quê?
– Digo-te que você…
– O “te” e o “você” não combinam.
– Lhe digo?
– Também não. O que você ia me dizer?
– Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. E que eu vou te partir a
cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se diz?
– Partir-te a cara.
– Pois é. Parti-la hei de, se você não parar de me corrigir. Ou corrigir-me.
– É para o seu bem.
– Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender.
Mais uma correção e eu…
– O quê?
– O mato.
– Que mato?
– Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem?
– Pois esqueça-o e pára-te. Pronome no lugar certo e elitismo!
– Se você prefere falar errado…
– Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou
entenderem-me?
– No caso… não sei.
– Ah, não sabe? Não o sabes? Sabes-lo não?
– Esquece.
– Não. Como “esquece”? Você prefere falar errado? E o certo é “esquece” ou
“esqueça”? Ilumine-me. Me diga. Ensines-lo-me, vamos.
– Depende.
– Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar-me-lo-ias se o soubesses, mas não
sabes-o.
– Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser.
– Agradeço-lhe a permissão para falar errado que mas dás. Mas não posso
mais dizer-lo-te o que dizer-te-ia.
– Por quê?
– Porque, com todo este papo, esqueci-lo.

1- Marque um X apenas na alternativa incorreta:
a) Existe um diálogo entre um par de pessoas.
b) Há uma conversa entre duas pessoas, sendo que locutor e interlocutor se alternam.
c) “O importante é me entenderem.” Essa frase destaca a importância da comunicação.
d) “Falo como todo mundo fala.” Esse período revela que, geralmente, a fala do homem é a reprodução daquilo que ele ouve.
e) O título é inadequado, visto que “papos” está no plural, e existe apenas uma conversa.

2- Esta crônica brinca com o uso do padrão culto da língua. Assim,
a) pode-se dizer que o autor quis criticar as padronizações da chamada linguagem culta. Dessa maneira, ele se utiliza da ironia.
b) é apresentado que os dois personagens dominam a norma padrão.
c) há um consenso entre os dois personagens de que pôr os pronomes no lugar correto é elitismo.
d) ambos os personagens são intransigentes e por isso se entendem.
e) um dos interlocutores aceita receber os ensinamentos do outro, que assume a postura elitista, detentor do conhecimento linguístico.

3- A colocação pronominal obedece a regras distintas. Assinale a alternativa que se encontra incorreta em relação a essas regras.
a) Far-se-á mesóclise caso o verbo esteja nos tempos futuros do indicativo.
b) A ênclise é obrigatória no início de uma oração, exceto se houver antes do verbo uma palavra atrativa.
c) A próclise ocorre quando o pronome vem antes do verbo.
d) Os advérbios de negação são exemplos de palavras atrativas que condicionam a próclise.
e) Em alguns casos, é aceito o uso de próclise e ênclise ao mesmo tempo, como na frase: “Espero que se resolvam-se todos os problemas”.

4- “Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender. Mais uma correção e eu…
– O quê?
– O mato.
– Que mato?
– Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te.”
Nesse trecho, a palavra mato foi interpretada de duas maneiras, quais são elas?

5- Através da leitura do texto, percebemos que alguém iria transmitir uma mensagem, entretanto foi esquecida. Qual é a razão para o esquecimento da mensagem?

6- Esse texto de Luis Fernando Verissimo trata, de forma humorística, da adequação ou não, por parte dos falantes, no uso da colocação pronominal. Qual parece ser a intenção do cronista ao tratar desse assunto?

7- Quando um dos interlocutores do texto afirma que o correto é “disseram-me”, está fazendo referência a uma das regras da gramática normativa para a colocação pronominal. Que regra é esta?

8- O interlocutor que é corrigido, ao tentar, ironicamente, utilizar a colocação pronominal de forma adequada, comete alguns equívocos. Retire dois e explique como seria a forma adequada.

9- Em uma conversa informal, como é o caso do texto transcrito, essa correção é adequada? Justifique sua resposta.

10- Quando um dos interlocutores afirma que “pronome no lugar certo é elitismo”, traz à tona uma interessante discussão sobre o uso da colocação pronominal segundo as regras da norma culta. Comente sobre o assunto.

Gabarito:
1- E
2- A
3- E
As demais respostas são dissertativas.

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Posto, logo existo
Martha Medeiros

closeup

Começam a pipocar alguns debates sobre as consequências de se passar tanto tempo conectado à internet. Já se fala em saturação social, inspirado pelo recente depoimento de um jornalista do The New York Times que afirmou que sua produtividade no trabalho estava caindo por causa do tempo consumido pelo Facebook, Twitter e agregados, e que hoje ele se vê diante da escolha entre cortar seus passeios de bicicleta ou alguns desses hábitos digitais que estão me comendo vivo.
Antropofagia virtual. O Brasil, pra variar, está atrasado (aqui, dois terços dos usuários ainda atualizam seus perfis semanalmente), pois no resto do mundo já começa a ser articulado um movimento de desaceleração dessa tara por conexão: hotéis europeus prometem quartos sem wi-fi como garantia de férias tranquilas, empresas americanas desenvolvem programas de software que restringem o acesso à web e na Ásia crescem os centros de recuperação de viciados em internet. Tudo isso por uma simples razão: existir é uma coisa, viver é outra.
Penso, logo existo. Descartes teria que reavaliar esse seu cogito, ergo sum, pois as pessoas trocaram o verbo pensar por postar. Posto, logo existo.
Tão preocupadas em existir para os outros, as pessoas estão perdendo um tempo valioso em que poderiam estar vivendo, ou seja, namorando, indo à praia, trabalhando, viajando, lendo, estudando, cercadas não por milhares de seguidores, mas por umas poucas dezenas de amigos. Isso não pode ter se tornado tão obsoleto.
Claro que muitos usam as redes sociais como uma forma de aproximação, de resgate e de compartilhamento – numa boa. Se a pessoa está no controle do seu tempo e não troca o real pelo virtual, está fazendo bom uso da ferramenta. Mas não tem sido a regra. Adolescentes deixam de ir a um parque para ficarem trancafiados em seus quartos, numa solidão disfarçada de socialização.
Isso acontece dentro da minha casa também, com minhas filhas, e não adianta me descabelar, elas são frutos da sua época, sua turma de amigos se comunica assim, e nem batendo com um gato morto na cabeça delas para fazê-las entender que a vida está lá fora. Lá fora!!
O grau de envolvimento delas com a internet ainda é mediano e controlado, mas tem sido agudo entre muitos jovens sem noção, que se deixam fotografar portanto armas, fazendo sexo, mostrando o resultado de suas pichações, num exibicionismo triste, pobre, desvirtuado. São garotos e garotas que não se sentem com a existência comprovada, e para isso se valem de bizarrices na esperança de deixarem de ser “ninguém” para se tornarem “alguém”, mesmo que alguém medíocre.
Casos avulsos, extremos, mas estão aí, ao nosso redor. Gente que não percebe a diferença entre existir e viver. Não entendem que é preferível viver, mesmo que discretamente, do que existir de mentirinha para 17.870 que não estão nem aí.

INTERPRETAÇÃO

1. Assinale a alternativa que indica a temática da crônica:
(A) O tempo que destinamos aos relacionamentos reais.
(B) As consequências de ficar muito tempo conectado na internet.
(C) Ao fato de ter o pensar como condição de existir.
(D) O grau de envolvimento na internet dos jovens tem sido extremamente responsável.

2. Assinale a alternativa que indica o fato que desencadeou a crônica:
(A) um jornalista ter afirmado que sua produtividade caiu em função da conexão à internet.
(B) de o Brasil estar atrasado na atualização dos perfis.
(C) É preferível viver, mesmo que discretamente, do que existir de mentirinha.
(D) As filhas da escritora viverem conectadas.

3. Na argumentação: “Claro que muitos usam as redes sociais como uma forma de aproximação, de resgate e de compartilhamento – numa boa.” A autora tem como finalidade:
(A) justificar ponto de vista anteriormente sustentado.
(B) introduzir argumento orientado para a conclusão do texto.
(C) fazer concessão ao ponto de vista contrário àquele que defende.
(D) refutar (contrapor-se a) ponto de vista defendido por outrem.

4. Para persuadir o leitor a chegar à mesma conclusão que ela, vale-se a autora de todas as estratégias argumentativas a seguir, EXCETO a que se lê em:
(A) ilustrar ponto de vista com elemento de natureza ficcional.
(B) apoiar-se em dados estatísticos.
(C) recorrer à exemplificação.
(D) apelar para o testemunho pessoal e de terceiros.

5. Assinale a alternativa em que há um testemunho pessoal, vivido pela própria autora:
(A) Tão preocupadas em existir para os outros, as pessoas estão perdendo um tempo valioso.
(B) Isso acontece dentro da minha casa também, com minhas filhas, e não adianta me descabelar, elas são frutos da sua época.
(C) São garotos e garotas que se valem de bizarrices na esperança de deixarem de ser “ninguém” para se tornarem “alguém”, mesmo que alguém medíocre.
(D) É preferível viver, mesmo que discretamente, do que existir de mentirinha.

6. “Se a pessoa está no controle do seu tempo e não troca o real pelo virtual, está fazendo bom uso da ferramenta. Mas não tem sido a regra.” Assinale a alternativa que indica uma conjunção que substitua a destacada sem alterar o sentido da frase.
(A) logo                   (B) portanto                            (C) e                        (D) porém

7. Assinale a alternativa que indica o referente da expressão em destaque da frase posterior: “O grau de envolvimento delas com a internet ainda é mediano e controlado”
(A) Das crianças em geral
(B) Das filhas da autora
(C) Dos estudantes
(D) Das jovens em geral

8. Para Descartes a condição de existir era:
(A) Postar
(B) Pensar
(C) Consumir
(D) Parece

9. Todas as alternativas indicam atividades não muito comuns hoje em dia, exceto os:
(A) Relacionamentos com uma dezena de amigos
(B) Passeios de bicicleta
(C) Hábitos digitais
(D) passeios ao parque para se distrair

10. Pela estrutura estamos diante de um texto híbrido que trata um assunto cotidiano, mais precisamente diante de:
(A) um artigo de opinião
(B) um texto narrativo
(C) uma crônica argumentativa
(D) uma reportagem

 

GRAMÁTICA

11. Complete as lacunas com “eu” ou “mim”:
I. Eles partiram antes de _____.
II. Eles partiram antes de _____ partir.
III. Há alguma coisa para _____ fazer?
IV. Para _____, a seleção brasileira é a favorita.
V. Preciso de férias para _____ viajar.
a) mim – eu – mim – mim – mim
b) mim – eu – eu – mim – eu
c) eu – mim – eu – mim – mim
d) mim – mim – mim – eu – eu
e) eu – eu – mim – mim- mim

12. Julgue as proposições como verdadeiras ou falsas:
I. O pronome pessoal do caso reto “eu” não deve ser empregado antes de verbos no infinitivo.
II. O pronome oblíquo “mim” não deve ser empregado antes de verbos no infinitivo.
III. O pronome oblíquo “mim” pode ser empregado antes de um verbo no infinitivo desde que haja uma vírgula sinalizando pausa para uma alteração na ordem direta da frase.
a) F – F – F
b) V – V – V
c) V – F – F
d) F – V – V
e) F – V – F

13. Assinale a única frase correta quanto ao uso dos pronomes pessoais:
a) Para mim, viver em Veneza é um luxo.
b) Fizemos os relatórios para mim apresentar.
c) Quando chegará o relatório para mim fazer?
d) Entre eu e você não existem diferenças.
e) Você não vive sem eu.

14. Assinale o item em que há erro no emprego do pronome demonstrativo:
a) Por favor, ajude-me a trazer aqueles pacotes que estão na outra sala.
b) Por que você anda sempre com estas mãos enfiadas nos bolsos?
c) Qual o manequim desse vestido que você está usando?
d) Estes seus olhos azuis são como dois oceanos!
e) Tens notícias daquele garoto que conhecemos sábado?

15. Assinale o tratamento dado a um prefeito:
a) Vossa Majestade
b) Vossa Santidade
c) Vossa Excelência
d) Vossa Magnificência
e) Vossa Meritíssima

16. Marque a opção que apresenta um pronome possessivo:
a) Todos a ensinavam a respeitar a natureza.
b) Ele estava muito nervoso.
c) A mulher cuja lembrança me dói nem sabe que existo.
d) Esse homem foi detido, pois ameaçou o policial.
e) Entenda que as suas promessas já não valem nada.

17. “Visitei o sítio da amiga de Paula, o qual muito me encantou.” Usou-se o qual no lugar de que:
a) por uma questão de estilo;
b) pois só o qual é pronome relativo;
c) pois tanto faz usar um ou outro;
d) pois ali só caberia um pronome relativo;
e) para evitar-se ambiguidade (duplo sentido).

18. Em qual frase existe um pronome indefinido?
a) Quantos deixaram de pagar?
b) Existe isso mesmo?
c) Ninguém vai conseguir ir devido ao trânsito.
d) Você devia ir a um salão e se cuidar!
e) Os operários que aderiram a greve lutam por seus direitos.

19. Assinale a alternativa que apresenta um erro de colocação pronominal:
a) Alguns alunos fizeram a lição, outros se fizeram de desentendidos.
b) Contar-lhe-emos toda a verdade sobre o assunto.
c) Me perdi porque anotei seu endereço de maneira errada!
d) Por favor, peça-lhe que venha ao meu escritório.
e) Nunca se queixou dos problemas, era resignado e otimista.

20. Sobre a colocação pronominal estão corretas as seguintes proposições:
I. Diante de pronomes relativos, que, quem, qual, onde etc., o uso da próclise é facultativo.
II. Diante das conjunções subordinativas que, como, embora etc., o uso da próclise é obrigatório.
III. Quando o verbo não inicia a oração e quando o verbo estiver no infinitivo não flexionado precedido de palavra negativa ou de preposição, pode-se usar, indiferentemente, próclise ou ênclise.
IV. A mesóclise só é obrigatória quando se combinam dois fatores: verbo no futuro iniciando a oração e ausência de palavra atrativa exigindo próclise.
a) I, II e III
b) II, III e IV
c) III e IV
d) I e II
e) Todas estão corretas.

Gabarito:
1- B
2- A
3- C
4- A
5- B
6- D
7- B
8- B
9- C
10- C
11- B
12- D
13- A
14- B
15- C
16- E
17- E
18- C
19- C
20- B

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