Ensaio como cronista

Quem visita o blog já percebeu que sou consumidora compulsiva de livros de crônicas… eles são minha primeira opção ao entrar numa livraria, têm lugar garantido na minha estante e fazem parte das minhas aulas. Obviamente já notaram também que minha preferência é por Luis Fernando Verissimo! Pois então… depois de tantas leituras, arrisquei escrever um texto…

 

A hora e a vez

Era uma vez, eu esperando a minha vez. Na verdade, são muitas as vezes em que eu e você passamos por essa situação de esperar a vez… ou seja, de encarar as filas.

Agora mesmo, enquanto aguardo na fila de um banco, tantos pensamentos passam pela minha cabeça – inclusive o de escrever sobre o assunto. Antes de sair de casa, imaginei que no horário do meio-dia houvesse menos movimento. Porém, ao chegar aqui, vi que outros tiveram essa mesma ideia.

Menos mal que há cadeiras… Posso aproveitar para ficar planejando, observando as pessoas, procurando algum rosto conhecido para puxar uma conversa. Mas, não encontro. Na verdade, tudo isso são pretextos que inventamos para nos distrair e criar a ilusão de que o tempo passará mais rápido. Então, começo a pensar sobre de quem é a culpa dessa espera… e já quero fulminar os atendentes com um olhar ameaçador.

A paciência começa mesmo a se esgotar. Olho no relógio, olho o cliente que está sendo atendido e sinto vontade de dizer que seja rápido, olho tudo, olho o celular, olho a senha… Ah, a maioria das filas se organiza pela senha. Para sermos atendidos, precisamos dela. E precisamos estar atentos, senão nossa vez passa.

Meia hora depois, começa também a dança na cadeira: cruzo a perna, descruzo, ajeito a coluna, inclino-me para frente, olho de novo o cliente que está sendo atendido, pensando em dizer que seja rápido – mas agora com menos educação…

E eis a rotina na fila. Ela está presente em tudo na nossa vida. Não só na hora de pagar a conta, de fazer a matrícula no colégio, de arranjar um emprego, pois, mesmo quando estávamos abrigados na barriga de nossas mães, já estávamos esperando a nossa vez de colocar a cara no mundo.

Assim, a vida pode ser comparada a uma imensa fila, onde as pessoas podem simplesmente passar por nós, ou podem nos marcar de modo especial. Muitos vão à nossa frente, e outros tantos são deixados para trás, porque abandonaram seu lugar. Tiveram pressa para alcançar os momentos alegres, mas, quando viram que o que estava à frente era um problema, desistiram de seguir e enfrentar.

E essa fila da vida não é diferente. Queremos atropelar a espera, porém todos têm a sua hora, a sua vez. Cabe a cada um não deixá-la passar. A fila anda! Quando chega o momento de resolver um problema, temos que enfrentar. Quando chega a hora de se despedir de alguém, temos que aceitar. Quando temos, tantas vezes, a oportunidade de praticar o bem, temos que o fazer. E quando chega a nossa vez na vida, temos que aproveitar, porque é a nossa grande chance.

Às vezes aguardamos ansiosamente, e um mero descuido nos faz perder a vez…

Ops! É o meu número!

Anúncios